Em boa parte do mercado de transporte, a pesquisa semanal da ANP (Agência Nacional do Petróleo) é utilizada como uma das principais referências para acompanhar a variação do diesel e embasar discussões de reajuste de frete. O problema é que, em momentos de alta abrupta, o custo da operação muda antes de o indicador conseguir refletir toda a intensidade desse movimento. E, quando isso acontece, cria-se um descasamento delicado: a transportadora já está abastecendo mais caro, mas a referência usada na negociação ainda mostra uma alta menor do que a percebida na prática.
Esse efeito ficou claro na primeira semana de março, quando o diesel passou por reajustes expressivos em várias regiões do país. Em poucos dias, muitos postos alteraram os preços sucessivamente, sobretudo nas rodovias, onde o giro de combustível é maior e a reposição dos estoques acontece mais rápido. Para a operação, o impacto é quase imediato. Já o indicador semanal tende a absorver esse movimento com mais lentidão, justamente porque consolida uma semana em que os preços ainda estavam mudando.
Parte dessa demora está na própria forma como a pesquisa é capturada. Na semana analisada, a ANP pesquisou 1.102 postos na segunda-feira, 756 na terça, 638 na quarta, 449 na quinta e apenas 50 na sexta-feira. Na prática, isso significa que mais de 60% da coleta já havia acontecido até terça-feira, e mais de 83% até quarta. Em uma semana marcada por reajustes mais fortes do meio para o fim do período, a maior parte da fotografia oficial já estava formada antes de o movimento ter se completado.
Além disso, existe uma diferença importante no perfil dos postos. Em muitos casos, a pesquisa tende a capturar maior quantidade de postos urbanos, que normalmente têm menor giro de diesel e, por isso, demoram mais para renovar estoques e repassar aumentos. Já os postos rodoviários vivem uma dinâmica diferente. Como vendem mais diesel e giram o estoque com mais rapidez, sentem o aumento primeiro e também repassam antes. É justamente por isso que, em semanas de alta acelerada, a percepção de preço para quem abastece na rodovia costuma chegar antes da percepção do indicador médio.
É nesse contexto que o IPTNS ganha relevância. Desenvolvido pela Gasola em parceria com a nstech, o índice foi criado para acompanhar os preços dos combustíveis a partir de múltiplas fontes, com foco especial no diesel e maior aderência à dinâmica das rodovias. A proposta é oferecer uma leitura mais rápida das variações de preço, especialmente em momentos em que o mercado se move mais rápido do que os levantamentos tradicionais conseguem captar.
Os dados das semanas 9 e 10 ajudam a ilustrar esse ponto. No Maranhão, o IPTNS registrou alta de R$ 0,75 por litro, enquanto a ANP apontou apenas R$ 0,06 no mesmo intervalo. No Piauí, o IPTNS mostrou aumento de R$ 0,67, enquanto a ANP ficou praticamente estável, com variação de -R$ 0,01. Na Bahia, o IPTNS captou alta de R$ 0,70, contra R$ 0,26 na ANP. Isso mostra que, em semanas de forte volatilidade, a pesquisa tradicional não capta a velocidade de mudança do mercado físico.
Em momentos de maior volatilidade, a discussão deixa de ser apenas metodológica. O que está em jogo é a capacidade de acompanhar, com aderência ao mercado, um custo que muda rápido e impacta diretamente a operação do transporte.