EUA e Venezuela: tensão geopolítica pode impactar o preço do diesel e do combustível no Brasil?

Sempre que surge uma tensão geopolítica envolvendo países produtores de petróleo, a mesma pergunta volta ao centro do debate: o combustível vai subir?
A movimentação recente dos Estados Unidos em relação à Venezuela reacendeu esse questionamento, especialmente entre quem depende do diesel para operar.

Mas o que, de fato, está em jogo? E mais importante: há risco real de impacto no preço do combustível no Brasil?

O que está acontecendo entre EUA e Venezuela?

Nos últimos dias, declarações e movimentos diplomáticos voltaram a colocar EUA e Venezuela no centro das atenções. Embora o tema tenha forte componente político, o mercado olha para outro ponto: o petróleo.

A questão central não é o discurso, mas se haverá impacto concreto na produção, exportação ou logística do petróleo venezuelano, fatores que, esses sim, poderiam influenciar os preços globais.

Por que conflitos geopolíticos costumam afetar o preço do petróleo?

Sempre que há incerteza, o mercado reage. E reage como?
Aplicando o chamado prêmio de risco.

Na prática, investidores elevam os preços preventivamente enquanto tentam responder a perguntas como:

  • A oferta global pode ser interrompida?
  • Alguma rota estratégica será afetada?
  • Há risco de sanções mais severas?

Esse movimento costuma gerar altas temporárias, muitas vezes antes mesmo de qualquer impacto real acontecer.

A Venezuela ainda é relevante para o mercado global de petróleo?

Apesar de deter as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, a Venezuela hoje responde por cerca de 1% da oferta global.

Por quê?

A resposta está no histórico recente:

  • Queda contínua da produção
  • Sucateamento do parque de refino
  • Crise interna prolongada

Isso significa que, mesmo em um cenário mais extremo, o impacto direto sobre a oferta global seria limitado, especialmente quando comparado a outros grandes produtores.

O mercado está reagindo com pânico ou cautela?

Até o momento, os dados mostram cautela, não pânico.

Com os mercados internacionais abertos, o petróleo registrava alta em torno de 1%, um movimento típico de especulação inicial diante de incertezas, mas longe de indicar ruptura no equilíbrio da oferta.

Se houvesse risco real de desabastecimento, o comportamento seria outro, com oscilações muito mais agressivas.

O que realmente influencia o preço do diesel hoje?

Aqui está um ponto crucial que muitas análises ignoram:
o contexto atual do mercado global é de oferta elevada.

Hoje, o mercado convive com:

  • Produção elevada da OPEP+
  • Aumento da produção em países como EUA, Brasil e Canadá
  • Estoques globais altos, com destaque para a China
  • Crescimento mais lento da demanda, influenciado pela desaceleração econômica e avanço dos veículos elétricos

Esses fatores ajudam a conter movimentos de alta mais duradouros, mesmo diante de tensões geopolíticas.

Pode haver impacto no preço do combustível no Brasil?

No curto prazo, o impacto tende a ser limitado.

A Petrobras tem adotado uma política de preços que não repassa automaticamente as variações do mercado internacional, e o diesel permanece praticamente estável há meses.

Um impacto mais perceptível poderia ocorrer apenas se:

  • O prêmio de risco internacional se mantiver por um período prolongado
  • Aumentar o custo dos combustíveis importados
  • Regiões mais dependentes de importação, como o Nordeste, forem pressionadas

Mesmo assim, ainda é cedo para associar qualquer alta doméstica diretamente a essa tensão internacional.

Então por que o diesel continua subindo?

Aqui está a pergunta que realmente importa para quem opera no dia a dia.

Mesmo sem guerra ou conflito internacional, o diesel já vem sofrendo pressões internas:

  • Aumento dos custos do biodiesel no fim de dezembro
  • Reajuste do ICMS no início de 2026, adicionando cerca de R$ 0,05 por litro

Ou seja, o diesel está subindo por fatores estruturais e domésticos, não por causa direta da tensão entre EUA e Venezuela.

O que empresas de transporte e logística devem observar agora?

Mais do que manchetes, o momento exige atenção aos fundamentos:

  • Política de preços no Brasil
  • Custos tributários
  • Composição do diesel (biodiesel)
  • Evolução da oferta global ao longo de 2026

A tensão geopolítica chama atenção, mas, até aqui, tem sido mais barulho do que impacto real nos preços.

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Vitor Sabag

Vitor Sabag é CRO e especialista em combustíveis no Gasola by nstech, com atuação focada em análise de preços, dinâmica do mercado de diesel e impactos econômicos no transporte e na logística. Produz conteúdos técnicos e estratégicos para apoiar a tomada de decisão de frotas e empresas em todo o Brasil.

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